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casas de são paulo: uma carta de amor

livro

uma carta de amor

Encaixada entre duas paredes de pedra de arrimo e quatro araucárias ela surgiu, quase escondida em meio à natureza de um terreno em declive, todos os andares rodeados pela mata e tendo como centro e a uni-los uma bela e sinuosa escada em caracol – depois da porta de entrada amarela, no topo, é ela que faz as honras da casa. Como que solta dentro de uma caixa de travertino itliano, com corrimão que é parte da estrutura, ensolarada sobre claraboias que permitem à luz alcançar todos os andares e partindo do alto do terreno até o terraço embaixo que é saída para o jardim, ela é a grande vedete desta casa de fim de semana em Campos do Jordão.

Foi um projeto-marco ou da maturidade, na vida de Marcelo Rosenbaum, conhecido arquiteto e designer de 40 anos que já virou grife “pop” de produtos industralizados com inspiração no artesanato popular brasileiro. Além de ter em programa na TV o quadro Lar Doce Lar, com audiência de 21 pontos no Ibope, onde reforma, com o intuito de aumentar a autoestima dos donos, a moradia de pessoas menos abastadas, é autor de casas, apartamentos, lojas e restaurantes badalados da cidade.

Marcelo, de mãe católica mas que, desde a infância, via o pai, Rubens Rosenbaum, advogado de origem alemã e judaica, fazendo as vezes de arquiteto, reformando casas para si e para vender, jamias acreditou que um dia haveria de projetar para o pai e, muito menos, que este fosse lhe dar carta-branca. Pois foi o que aconteceu, quando Marcelo lhe propôs que demolisse a casa existente no terreno, mal posicionada, úmida e onde o sol não entrava, e partisse para algo mais condizente com o entorno. Se alguma exigência houve, foi que a casa fosse generosa, com espaço também para os quatro filhos do casal, todos por sua vez casados e com filhos. E, depois de três anos de obras, de assistir ao pai contente e entusiasmado tercer-lhe elogios, ganhou forma este projeto, que Marcelo considera uma carta de amor ao pai.

Nada na construção deixou de ser cuidadosamente pensado, como o contraste entre o travertino polido da lareira dentro e fora da churrasqueira e a pedra goiana bem bruta das paredes, que parece ter ali sido encontrada. Além das madeiras, sempre de demolição ou certificadas, tratadas ou deixadas em estado natural. Ou é perobinha-do-campo, ou pínus, ou pinho-de-riga, ou as longas e cinzas cruzetas de postes antigos. Aparecem nas venezianas das janelas tais quais biombos que depois se fecham formando um só painel grande, ou em portas internas e altas do chão ao teto, marcos, degraus da escada, deck, onde os dormentes se transformam, nas extremidades, em longos bancos que se fundem à paisagem.

No andar central, os quadros têm idêntica visão da floresta e cada um cor diferente no teto, que pode ser o azul de um céu adormecendo ou tons do outono, terrosos e alaranjados.

Mostrar que a boa arquitetura e o bom design fazem diferença na vida das pessoas é crença que sempre lhe pautou o trabalho. Aqui, nesta casa escondida atrás da natureza e onde várias gerações se reúnem com prazer, conseguiu o que talvez mais desejasse na vida – ser reconhecido e admirado pelo pai.

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texto Maria Ignez Barbosa
fotografia Tuca Reinés
São Paulo, 2009
Metalivros

 

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